Bebia coca-cola e fumava o resto do dia. A outra parte era dedicada a mim e ao curso superior. Estava há quilômetros de distância. Nem sei quantos, nunca contamos porque somos otimistas. Mas nos víamos todos os dias.
Em meus sonhos, sempre havia um cigarro. Sempre havia um desenho de engenharia pendurado na parede da janela, ao lado das declarações de amor. As declarações de amor eram feitas com lápis coloridos. O preto e o laranja eram nossos favoritos.
Quando fazia frio em mim, fazia calor lá. E vice-versa. Nós trocávamos o que podíamos e nos aquecíamos e nos refrescávamos. Íamos dormir com o toque do telefone. Ainda hoje acho que significa algo. Meu toque era uma música eletrônica do inicio de 2008, depois eu troquei para uma musica brasileira. Mais ou menos na época que meu celular parou de tocar.
Hoje em dia meu celular só vibra. Quase nunca. Minha mão coça pra digitar seus números, enquanto lembro das nossas conversas e das nossas juras. Mas guardo elas no bolso da jeans, lembrando também que você já nem sabe meu segundo nome.
Eu costumava subestimar tudo isso. Hoje vejo que teve sua importância. Quando vejo as outras pessoas fazendo o mesmo. Quando vejo sua foto e lembro de você sorrindo. Seu sorriso era tão perfeito. Mesmo que você fosse capaz de achar um monte de outros defeitos pra empregar ele. Mas você sorria enquanto falava. Você sorria, enquanto cantava.
Cantava a nossa canção. Sim, nós tínhamos uma canção. E, seus versos, trocávamos como se fossem de nossa autoria. Completávamos nossos trabalhos. Nossas artes. Era tão recíproco. Ou talvez seja parte da minha memória que falha. Prefiro fantasiar.
Lembrar dos desenhos mostrados. Todos eles feitos como se você tivesse seis anos de idade. Corações tortos e vermelhos. Corações feitos com números que não tinham sentido e que foram comprados. Corações feitos com cinzas dos cigarros fumados. O copo de coca-cola sempre gelado, sempre por perto. Ainda que estivéssemos distantes.
Há quilômetros daqui, alguém de vez em quando pensava em mim. E eu pensava de volta. Hoje já não tem importância. Hoje já passaram novas pessoas. Mas a nossa canção... Espero que ainda seja nossa.
Lost Cause.
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